São Paulo, 17 de maio de 2020

O TELETRABALHO E AS RELAÇÕES BINÁRIAS

 

Mais um domingo de sol. Estou trabalhando ao invés de dar uma volta com o meu cachorro, querido companheiro de quarentena.

Não, nada disso. Não sou viciado em trabalho, mas o fato é que preciso antecipar esse relatório que deverá ser entregue na segunda-feira, enfim, tão logo termine de inserir as informações, certamente partirei com o meu ‘amigo’ para o meu comportado passeio no entorno do meu prédio, devidamente paramentado com máscara e rituais de higienização.

O “#fica em casa” deve ser conduzido com equilíbrio, sob pena de maltratarmos nossa tão combalida saúde mental. Pandemia também virou disputa binária, infelizmente.

E, sob o enfoque da análise do teletrabalho, também devemos agir com parcimônia.

Peço permissão para algumas reflexões… prometo, serei breve!

O jeito binário de ser e entender a vida quando da análise dessa modalidade de trabalho, incrivelmente potencializada nesses tempos de pandemia, o denominado trabalho remoto, também merece investigação cautelosa. O teletrabalho não é a panaceia que irá resolver os problemas da humanidade, tampouco o instrumento que nos levará à inexorável escravidão digital.

O bem e o mal, preto e branco, formatos binários de instrumentalizar nossas emoções, atos e, certamente, o nosso trabalho.

O teletrabalho tem o seu lado libertário, autogerenciamento de nossas vidas, melhora da performance, de acordo com o biorritmo de cada um, o que certamente é um convite aos novos tempos. Queremos e podemos nos emancipar no quesito “somos responsáveis” e sabemos gerenciar nosso trabalho de modo a obter o melhor rendimento de nossas atividades e melhorar qualidade de nossas vidas.

De outro lado, o trabalho realizado à distância por meio de instrumentos de informação e comunicação, pode ser um aliado de novas e sub-reptícias armadilhas, a ponto de envolver o teletrabalhador em verdadeiras ciladas panópticas de vigilância.

O melhor (maligno) dos mundos: vigiar sem assumir que o controle é constante e feroz, afinal, não é novidade que a possiblidade de controle ocorre nos seus mais variados formatos, inclusive por meio de plataformas, que apontam resultados vindos de terceiros e, via de consequência,  conseguem apontar com facilidade o nível de envolvimento do teletrabalhador.

A distância, nesse caso, não significa liberdade, ao contrário, o controle das metas é capaz de apontar com precisão o tempo despendido pelo colaborador na realização de cada mínima parte de uma determinada tarefa.

Temos aqui, portanto, incontestavelmente, o teletrabalho em dois formatos, a confirmar o entendimento binário de minha análise, ou seja, de um lado, o abismo civilizatório, de outro, um voo libertário.

Nem abismo civilizatório, tampouco voo da liberdade.

O teletrabalho, no meu ponto de vista, é uma modalidade de trabalho que, a propósito, já vinha sendo utilizado por inúmeras empresas muito antes da atual crise sanitária, notadamente por conta de sua regulamentação mais abrangente a partir da reforma trabalhista de 2017.

O que observo é o seguinte: não precisamos matar o mensageiro, no caso, o trabalho remoto, isso porque ele não é o responsável pelos  denominados escravos digitais, cujo desvirtuamento já acontece no trabalho presencial, como também não é o algoz que a nos impulsiona ao “milagre”  da produtividade sem limites e sem controle.

De outro lado, o teletrabalho também não é a solução definitiva para as nossas aflições no campo da saúde mental e qualidade de vida, principalmente quando ingenuamente achamos que temos o controle de nos autodefinimos senhores absolutos de nossas vidas na relação capital e trabalho.

É necessário, bem sabemos, identificar eventuais gestores que querem fazer uso indevido desse tipo de trabalho nessa desarmônica busca de metas irreais, não factíveis.

De outro lado, também precisamos identificar aqueles colaboradores que procuram se esconder por conta de um maior distanciamento laboral, inviabilizando o bom desenvolvimento das atividades e prejudicando o trabalho em equipe.

Enfim, se efetivamente queremos ter experiências exitosas com o trabalho à distância, e que efetivamente representem uma evolução nas relações de trabalho, necessário entender que, seja qual for o caminho que pretendamos seguir, não poderemos alcançar a tão necessária regeneração de nós mesmos e de nossas relações profissionais sem a utilização do dosador que nos levará ao tão necessário equilíbrio,  o caminho do meio.

O recado aqui vale para o telegestor e o teletrabalhador, evidentemente.

Assim, quando insistimos em tratar o TELETRABALHO com essa precária forma binária de encarar a vida, certamente estamos diante de um desperdício sem precedentes, o que nos levará a não mais bendizermos esse “novo” normal.

Luis Otávio Camargo Pinto

Sócio de Yarshell e Camargo Advogados

Presidente da Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades