São Paulo, 19 de maio de 2020

A visão da chefia. A revanche?

Estou aqui na minha residência. Já são 50 dias afastado da sede da empresa, situação nada fácil. Dirigir aproximadamente 200 pessoas a distância não é para amadores, pois não tivemos tempo para nos organizarmos.

Quem poderia imaginar que uma pandemia pudesse afetar nossas vidas nessa dimensão?

Fiquei sabendo de um colega, colaborador de uma concorrente, que sua empresa implantou, antes da COVID-19, um projeto estruturado para implementação do teletrabalho em alguns departamentos. Não bastasse isso, referida empresa também havia estabelecido para o seu corpo funcional, há alguns anos, o denominado PCN (Plano de Continuidade de Negócios), já prevendo situações que demandassem ações rápidas, isso porque a sede dessa concorrente está numa região regularmente afetada por enchentes, daí a necessidade de um olhar cuidadoso para ações emergenciais.

Minha empresa nunca se preocupou com essas questões, tampouco com esse denominado PCN. Para falar a verdade, se antes da pandemia me fosse apresentado esses dois projetos, não daria a devida importância.

Por meio de um pequeno grupo (somente os colaboradores mais fiéis) que criei no WhatsApp, acabo de saber que um integrante do departamento ficou incomodado com o mero acompanhamento de rotina que venho realizando, pois necessitava saber, com antecedência, se o relatório que a diretoria solicitou sairia a tempo e a modo desejado.

Segundo pude depreender, a reclamação consistiu no fato de que eu havia demonstrado desconfiança ao requerer um pré-relatório, antes da data final acordada e, pior, teria assim agido, segundo a versão do meu “detrator”, somente por conta de minha insegurança.

Nada mais revoltante. A falta de empatia demonstrada por esse colaborador me deixou muito contrariado, afinal, certamente não percebeu minha situação extremamente delicada e não posso dar qualquer passo em falso.

As cobranças da diretoria estão se intensificando. A cada novo dia, nos deparamos com informações de nossos clientes, grandes empresas, antecipando notícias ruins de que a produção, que teria início no fim do mês, mais uma vez foi adiada. Isso, certamente, faz com que novos levantamentos sejam fornecidos, pois a direção da empresa necessita, com celeridade, de dados para reprogramar suas demandas internas e externas.

A segmento da empresa da qual estou falando foi um dos mais afetados pela COVID-19. Contratos suspensos para uns, reduções salariais para outros. Já fui informado, infelizmente, de que muitos colegas perderão seus empregos após os prazos consignados nos acordos celebrados com o Sindicato da categoria. Uma crise, tenho certeza, que nenhum de nós poderia imaginar.

Enfim, nesse momento de profundas incertezas, o que eu esperava do meu colaborador era que a nossa comunicação fosse o mais transparente possível. Ser alvo de fofocas não condiz a parceria que deveria reinar entre liderança e liderado. Decepção, essa é a única palavra que consigo registrar nesse momento.

Sempre demonstrei rigorosa confiança com o meu time, mas é preciso entender que em momentos de absoluta excepcionalidade, procedimentos que até então estávamos acostumados a lidar necessitam ser revisitados.

Ademais, qual o incômodo em atender um mero pedido da chefia? Se até então era rotineiramente exigido quanto às metas do meu departamento, como qualquer empresa, diga-se de passagem, muito mais agora preciso de informações rápidas e inexoravelmente exatas. Se não há margem para erros, minha cautela demonstra o respeito ao momento grave pelo qual estamos passando. O resto é ‘mi-mi-mi’.

Após mais um relato de um teletrabalhador, agora partindo da chefia, é possível tirar algumas conclusões.

É possível identificar que a empresa não estava preparada, não apenas para a presente pandemia, bem como para qualquer outra situação adversa. Definitivamente, ‘plano B’ não faz parte dessa organização.

Nada impedia que a chefia mudasse de ideia e antecipasse o pedido de informações, no entanto, por qual motivo essa necessidade não fora explicitada ao liderado, o que certamente evitaria ressentimentos e dúvidas?

Transparência é uma via de mão dupla.

De outro lado, também não havia qualquer impedimento para que o liderado demonstrasse a tão almejada empatia com a sua liderança, ante o momento de importante desestabilização econômica que o mundo está passando.

Por último, se os processos estão bem estruturados, é justamente durante situações adversas que são colocados à prova. Se não existem, está aberta a temporada para o campo dos improvisos.

Simples (ou complexo) assim.

 

Luis Otávio Camargo Pinto

Sócio de Yarshell e Camargo Advogados

Presidente da Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades.