03 de setembro de 2020

 

Hoje foi dia de terapia no coworking. Para quem não está lembrando ou não acompanhou a parte I do meu diário, após a COVID-19 passei a realizar sessões virtuais de terapia.

Meu terapeuta, como forma de fidelizar seus pacientes, ofereceu uma sessão presencial, a cada dois meses, valendo-se de que as sessões virtuais continuariam firmes pós pandemia.

Pois bem, hoje não foi fácil, pois abri a caixa de ferramentas na sessão promocional do bimestre.

Passei, alguns meses atrás, por um momento, digamos, bastante reflexivo no meu casamento. Defino como sendo situações de stress no período “pedagógico” da pandemia. Alguns desencontros, pouco relevantes, eis que somente representaram desgastes passageiros, e que, a bem da verdade, sequer poderiam ser considerados atritos reais, mas existiram. Outros, desentendimentos um pouco mais profundos.

O que não faz a intensa convivência diária, não é?

Com relação a esse stress matrimonial, hoje foi dia de desabafar, afinal, por conta do home office mandatório, minha realidade passou a ser uma só:  sete dias por semana na minha casa, o que também ocorreu com a minha esposa.

Busquei informações, li entrevistas e reportagens sobre home office, procurei, enfim, estabelecer rotinas inteligentes com os meus filhos: Joana, 8 anos e Pedro, 10 anos. Ela, vibrante, elétrica, protagonista do nosso lar. Ele, tranquilo, estratégico e sábio.

Sim, crianças com todas essas virtudes, mas crianças. E crianças, vez ou outra, precisam que suas tomadas sejam desligadas com atitudes criativas.

Estabelecemos acordos familiares, afinal, meus adorados filhos, como sempre falo, durante aquela indigesta pandemia, precisaram entender que papai e mamãe estariam muito mais presentes no lar, mas isso não significa que estaríamos de férias ou de folga no trabalho. Procuramos ser muito didáticos e, após erros e acertos, diálogos e recompensas, acabamos encontrando um tempo para o trabalho e um tempo para o lazer.

No começo, parecia missão impossível, mas aos poucos conseguimos acertar nossos ponteiros. Houvesse algum roteiro ou treinamento do meu empregador, a “torcida” agradeceria, porém, nada disso aconteceu, o que ensejou aprendizado na raça e na coragem.

Por conta de nossa aparente maturidade, eu e minha telecompanheira, desafortunadamente, acabamos esquecendo de estabelecer também “acordos familiares” entre o casal, o que gerou profundo um desgaste e, quase, uma separação…

Não nos separamos, mas ficaram algumas sequelas, e hoje, repito, não escapei da hora da verdade na terapia. Falei, desabafei, falei um pouco mais. Chorei, fiquei com raiva, enfim, acho que ele entendeu…

O desabafo, senhoras e senhores, foi no sentido de que o casal em regime de home office se descuidou. Nosso apartamento, pequeno mas aconchegante, não permite que ficássemos no modo “um na sala e o outro no quarto”. Por questão de luminosidade ideal e ergonomia, dividíamos a utilização da mesa da sala de jantar.

Por termos, na maioria das vezes, o olhar e a preocupação voltados aos nossos filhos, deixamos de apontar os motivos de irritação na “jornada de trabalho”.

Um mês, tudo bem. No segundo, situações de impacto e, no próximo, infelizmente, quase um vale tudo.

Por incompreensível competição, minha esposa passou a ter um olhar crítico em relação as minhas condutas com a minha equipe de trabalho, quando da realização de videoconferências. Eu, de outro lado, ficava analisando o comportamento dela com sua sócia, notando uma certa subserviência.

Segundo sua criteriosa análise, minha esposa passou a me enxergar como uma pessoa tóxica nessas reuniões e eu, com os meus óculos sujos, talvez nada empáticos, passei a vê-la como uma profissional que precisava se posicionar com mais punch nos embates técnicos de trabalho.

Ela, acredito, se desorientava com o meu pijama e barba por fazer ao longo do dia, cujo cuidado na aparência eu somente tinha quando realizava minhas videoconferências…

Tudo isso foi contaminando nossa relação, e o pior, nada foi dito durante e após a pandemia, mas somente agora, após algumas provocações, fora colocado pra fora nessa sessão de terapia.

Percebi que, silenciosamente, ingressamos numa sintonia de competição e análises não generosas e recíprocas. O desgaste aconteceu…

Aprendi, portanto, que a minha vida de teletrabalhador tem importantes desafios. Acordos familiares parciais ou empíricos não valem. Há que se estabelecer critérios para todos, indistintamente.

Respeito, disciplina e tolerância eram – e sempre serão – ingredientes imprescindíveis naquele momento de home office mandatório.

Passamos por tudo isso, sobrevivemos. Ainda ficaram marcas, mas vai passar.

Parece risível, mas se fossemos presenteados com um treinamento, com saudáveis dicas sobre “acordos familiares” e demais aspectos que envolvem a saúde mental, com a amplitude que o assunto merece, poderíamos ter economizado dissabores durante esse período de exílio residencial.

Certamente seríamos mais produtivos em nossa quarentena viral, o que reverteria favoravelmente para o meu empregador e para o negócio de minha esposa.

Ficou o aprendizado para aquilo que só um casal deve resolver.

Para o resto, fica a dica para o RH.

 

Luis Otávio Camargo Pinto

Sócio de Yarshell e Camargo Advogados

Presidente da Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades – SOBRATT