São Paulo, 01 de maio de 2020

Hoje é o dia do trabalho. Não teve passeata, sequer show com sorteio de veículos. Lives de artistas e discursos de sindicalistas por videoconferência. É o que temos para hoje.

Bom dia, COVID-19.

Estou aqui na meu home office preparando um relatório que deverá ser entregue segunda-feira.   Confesso que estou preocupado com a minha situação na empresa, afinal tudo está muito indefinido e, para completar, informações inundam essa quadra de adversidades sanitárias somente com más notícias.

A empresa está com sua atividade praticamente paralisada, no entanto, a diretoria entende que esse levantamento de dados será de vital importância para que o departamento possa, tão logo haja o retorno definitivo ou parcial do setor, tomar as atitudes necessárias para definição de novas estratégias.

Tenho agendado uma videoconferência com a minha chefia direta em pleno feriado. Achei exagero e, como se não bastasse, acabei de receber inusitada mensagem no meu WhatsApp, com o alerta de que a reunião virtual da próxima semana não será realmente produtiva se eu não encaminhar o relatório com antecedência, ou seja, até o final de semana.

Ingenuamente, acreditei que a reunião teria tão somente o objetivo de buscar atualização sobre o andamento das informações, que até então haviam sido tabuladas, parecendo-me desarrazoado o pedido que chegou no meu celular.

É engraçado, o fenômeno da virtualidade fez com que o meu chefe ficasse visivelmente inseguro. Em condições de regular temperatura e pressão, quando as atividades estavam sendo realizadas na sede da empresa, ele, que trabalha na baia ao lado da minha, buscava informações sobre as minhas atividades, verbal e visualmente, sendo que minhas respostas padrão eram (todas elas) no estilo: “fica-tranquilo-chefia-que-o-relatório-será-entregue-no-prazo.”

Percebo que esse “afastamento” visual diário está enlouquecendo minha “liderança”, a ponto de pedir a antecipação do prazo de entrega de relatórios, como se o trabalho em home office fizesse com que eu deixasse de honrar minhas obrigações.

É fato, a “passadinha” na minha baia viabilizava aquela despretensiosa visualização de “soslaio”, enfim, santo remédio para atenuar os sintomas de uma insegurança no ar…

O que é possível compreender é que a fiscalização ostensiva sempre foi rotina, mas “aparentemente” disfarçada com essas “falsas” invasivas solicitações sobre o andamento das tarefas diárias.

A bem da verdade, não percebia que a forma panóptica de vigiar meu trabalho era a regra, e aconteciam com regularidade, enquanto as atividades transcorriam “normalmente” na sede da empresa.

Pois bem, o home office devassou essa hipocrisia. Não dá mais para dar aquela “olhadela” despretensiosa na tela do colaborador ou apresentar pequenos lembretes verbais sobre o andamento dos serviços.

Ao que tudo indica, minha liderança não entende que a simples mudança espacial das minhas atividades não fez com que a qualidade do meu serviço desaparecesse e/ou não mais honrasse as entregas de meus relatórios, sempre muito pontuais.

Acredito, contudo, que eu possa apresentar algumas alternativas de caminhos esse sensível assunto, um maléfico, outro empático.

O primeiro, significará permitir que o duelo mental se perpetue no tempo, ou seja, enquanto estiver em trabalho a distância, continuarei reclamando da minha chefia, que deixa de honrar os próprios prazos estabelecidos com os seus liderados, e nada farei para estabelecer mínima escuta para solucionar o problema.

O segundo, basta que eu permita que meu chefe tenha acesso às minhas informações, facilmente obtidas por simples trocas de e-mails ou compartilhamento de telas, enquanto ferramentas de apoio ainda não sejam implementadas, mitigando assim eventual insegurança, por conta de maior acesso ao conteúdo do meu trabalho e, mais ainda, significando o fim de exteriorizações do tipo: “preciso do relatório com antecedência.”

Após mais um relato de um teletrabalhador, abre-se espaço para uma reflexão final:

Lideranças e liderados, com regras claras, gestão compartilhadas de projetos, metas factíveis, bem definidas e acompanhamento saudável de atividades, certamente atingirão o desenvolvimento mais eficiente dos processos sem o mito da vigilância constante.

Confiança deve sempre imperar nas relações presencias ou não presenciais, mas certamente tem maior relevância nesse momento de distanciamento mandatório.

Enfim, sem procurar buscar culpados, o aprendizado que fica é que vigilância insegura e desorganizada, não combina com gestão 4.0.

O que importa pode ser traduzido em apenas duas palavras: (i) resultado, sob a ótica da empresa, e qualidade de vida, sob a ótica do teletrabalhador. O desconhecimento desses harmônicos e complementares comandos no trabalho só faz erigir aquele muro que separa os chefes dos líderes.

Simples assim.

 

Luis Otávio Camargo Pinto

Sócio de Yarshell e Camargo Advogados

Presidente da SOBRATT – Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades.