São Paulo, 26 de agosto de 2021

Hoje acordei saudosista.  Talvez a palavra não seja exatamente saudade, mas o fato é que hoje fiquei com vontade de revisitar um passado recente.

Estou aqui num agradável coworking, próximo do meu antigo escritório.  Confesso que fiquei com certas neuroses pós COVID-19.  Como vocês sabem, coworkings, logo após o fim daquela horrível quarentena, passaram a ser espaços neuroticamente hostis, na medida em que convivemos com várias pessoas nesses locais, o que dá ideia de aglomeração, etc.

Ficamos esquisitos?

Isso foi superado, afinal, os empresários que administram esses escritórios virtuais, ou melhor, aqueles que conseguiram sobreviver mercê de forte negociação dos valores dos aluguéis ou porque já eram os proprietários desses espaços, criaram ilhas de convivência ao melhor estilo “minha residência”, ou seja, mais acolhimento e menos sensação de contato…

Álcool gel à vontade e máscaras, além do seguro espaçamento entre as “ilhas” certamente quebraram resistências dos mais ortodoxos defensores do movimento fique-longe-de-estranhos, que teve início após a quarentena, cujo ideário continua defendendo até hoje o permanente “isolamento social relativizado”.

Ficamos esquisitos ou nova necessidade?

Quanto ao medo gerado pós CORONAVÍRUS, aqui abro um parêntese para o meu terapeuta. Ele, a propósito, é muito bem adaptado aos tempos modernos, isso porque continuamos realizando sessões virtuais até hoje, todas elas por videoconferências, o que significa dizer que não há qualquer prejuízo nessa conexão. Conforme ele me explanou, as videoconferências não perdem qualidade desde que ele consiga me enxergar por inteiro, afinal, o corpo fala e dá sinais importantes…

Portanto, ao iniciarmos nossas sessões de terapia, deixo a minha cadeira com distância confortável da câmera, tudo com o objetivo de tornar minha exposição (expressão corporal e fala) mais efetiva.

Meu terapeuta continuou mantendo contatos virtuais por conta dos custos, afinal, percebeu que não havia necessidade de continuar pagando aluguel, quer dizer, não conseguiu mais manter os custos com aluguel, condomínio, etc.

Para não radicalizar, quando necessário, marcamos encontros numa sala de reunião, aqui no coworking. Essa reunião é brinde e faz parte do meu pacote mensal terapêutico.

Conforme falei anteriormente, acordei com vontade de revisitar. Revisitar meu antigo escritório: salas de reunião, copa, sem falar na “minha sala”, com aquele confortável espaço para a “minha” geladeira, estante com muitos livros e porta-retratos.

A bem da verdade, antes mesmo da COVID-19, já estávamos realizando videoconferências com certa regularidade.  Por comodismo e no curso da vida, não nos questionávamos quanto à real necessidade daquela estrutura, mas daí chegou aquela maré pandêmica e fomos tomados de assalto diante desse tsunami viral.

Todos os colaboradores, da noite para ao dia, passaram a atuar em suas residências.  Nem todos se adaptaram, não pretendo aqui romantizar o momento, mas sobrevivemos. Quer saber, sobrevivemos muito bem, deu certo.

Já no fim do ano de 2020, nos mobilizamos e fizemos a entrega parcial de nossa estrutura. Na negociação, um terço do espaço que antes utilizámos permaneceu alugado. Continuamos, portanto, com reduzido espaço para nossos encontros presenciais com o corpo de colaboradores e clientes.

Confesso que estou bem adaptado, mas não nego que, num futuro próximo, essa pequena estrutura também se apresentará desnecessária.

Hoje acordei com a certeza de que o menos é mais. Acordei com o sentimento de que as novas gerações que frequentavam a minha antiga estrutura já eram detentoras de um outro mindset, pouco se importando para o layout, escritório próprio, alugado ou coworking, assim como o formato do trabalho desenvolvido pelo corpo funcional: presencial ou telepresencial.

Hoje acordei com a percepção de que minha terapia a distância está funcionando e os custos para manter a minha saúde mental estão mais confortáveis para o meu bolso.

Hoje acordei com a convicção de que o teletrabalho, trabalho a distância ou ‘home office’, deixou de ser mera alternativa, mas entrou definitivamente no campo das nossas mais básicas necessidades, seja do ponto de vista filosófico, seja do ponto de vista da nossa própria sobrevivência.

Luís Otávio Camargo Pinto

Sócio – Yarshell e Camargo Advogados

Presidente da SOBRATT – Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades